Aviso logo, porque é o tipo de coisa que muda como você lê o resto: os dois links deste post não são de afiliado. Eu não ganho nada se você usar. Estou citando os dois porque são os que eu uso, e é só isso.
A viagem
2023. Recife → Lisboa → Paris, e de Paris um ônibus saindo de Bercy até Reims, na região de Champagne.
No dia do voo, três da tarde, a escola me ligou: Dinah estava com febre. Febre baixa, sem mais nada — sem tosse, sem dor, sem moleza. Ela estava no integral justamente pra eu terminar de arrumar as malas.
Eu pensei o que qualquer mãe pensaria: é ansiedade. Ela já tinha voado antes, ela gostava de voar, estava contando os dias. Chegou em casa quentinha, mas disposta, pedindo comida. Dei dipirona e a gente viajou.
E aqui eu preciso ser justa comigo e com você: febre baixa isolada em criança não é incomum, e não era irresponsabilidade viajar. Eu não conto essa parte pra me acusar. Conto porque é assim que essas coisas começam — não com um sinal claro que você ignorou, mas com um sinal pequeno que parecia outra coisa.
Chegamos em Reims quase uma da manhã no horário de lá. Dormimos pouquíssimo.
O dia seguinte
De manhã cedo, passeio na Veuve Clicquot — as caves, os vinhedos. Dia frio. Dinah era pequena, se entediou rápido, ficou no carrinho e acabou dormindo.
No fim do passeio, quando a gente já estava se preparando pra voltar, Nicco tirou ela do carrinho. Ela tossiu, tossiu, tossiu e vomitou uma gosma branca.
Achei estranho, mas achei que fosse catarro do frio. Dei um antialérgico. Ela voltou a dormir no caminho, e o caminho era longo — o parreiral fica longe.
Chegamos no hotel destruídos. Não almoçamos, não jantamos. Ela dormindo no carrinho, e a gente com pena de tirar ela dali. Deitei. Nicco deitou.
Eu acordei. Ele acordou. Ela não.
Aí eu já estranhei, porque dormir tanto não era dela. Quando peguei nela, estava empapada de suor. Empapada. E com uma pulsação estranha no pescoço.
Era época de covid ainda, e eu viajava com oxímetro. Coloquei no dedo dela.
77
A saturação dela estava em 77.
Eu não vou explicar aqui o que esse número significa, porque não é meu papel e eu não sou médica. Só vou dizer que eu entrei em desespero, e que quem já viu esse número numa criança sabe por quê.
Agora a parte que este post veio contar
Eu estava só com o seguro do cartão de crédito.
Não por descuido. Foi por aquele raciocínio que todo mundo já fez: contrata e não usa, contrata e não usa, dessa vez vai o do cartão mesmo. Foi uma das pouquíssimas viagens em que a gente não contratou seguro. E foi justamente a vez em que precisou.
O que aconteceu a partir dali não foi falta de cobertura. Foi a impossibilidade de chegar até ela.
1. O telefone tinha que ser fixo
O número de acionamento era um 0800. Eu tentei do celular e me embananei — na época, tinha que ser de telefone fixo.
O único telefone fixo disponível era o da recepção do hotel. E o hotel tinha uma linha só.
2. A verificação levou mais de uma hora
Antes de qualquer coisa, a atendente precisava confirmar que a passagem tinha sido comprada naquele cartão — ou que as milhas usadas eram decorrentes daquele cartão.
Esse processo, sozinho, passou de uma hora. Uma hora com a minha filha do jeito que ela estava, eu ocupando o telefone da recepção de um hotel que tinha uma linha só.
3. A recepcionista quis o telefone de volta
Ela viu que a criança estava mal. Viu que eu estava desesperada. E pediu o telefone de volta, porque eu não podia ficar ocupando a linha do hotel.
Não vou dizer o nome do hotel — sinceramente, não lembro mais. Reclamei no Booking na época e sigo em frente. Mas o ponto não é ela: o ponto é um sistema que só funciona se um estranho de boa vontade te emprestar o telefone dele por uma hora.
4. E então, depois de tudo isso
Passada mais de uma hora, a atendente me disse:
"Ah, mas eu tenho como ligar pro seu telefone."
Tinha. Desde o começo. A hora inteira em que eu implorei o telefone de uma desconhecida era evitável, e ninguém me disse.
5. O pronto-socorro determinado — e fechado
No fim, ela me passou o endereço de um pronto-socorro específico. E foi clara: se não fosse naquele, o seguro não cobriria, e não haveria reembolso. Ou seja: ou eu ia naquele lugar, ou eu pagava tudo do bolso.
Tudo bem. Fomos.
Chegando lá, estava fechado. Era domingo.
O que salvou não foi o seguro
A essa altura eu já não estava mais pensando em dinheiro. Dinah estava catatônica. O motorista do Uber disse que ia levar a gente pra melhor emergência infantil da cidade, e levou.
E aí a sorte — porque foi sorte, não planejamento. Eu já tinha morado na França e sabia como funciona a saúde de lá. Ela não é exatamente pública: é subvencionada, o governo paga a maior parte, e em tese as pessoas precisam ser seguradas, senão pagam.
Chegamos num hospital universitário pediátrico. Pediram o passaporte. Só isso. Nada de caução, nada de cartão, nada de garantia.
E o atendimento foi o melhor que ela já teve na vida. Triagem imediata, exames vindo até o quarto, diagnóstico em uma hora: otite.
A gente estava tão desesperado que não tinha percebido uma coisa óbvia — o cabelo dela estava todo grudado no ouvido.
Ela ficou internada, monitorada, com antibiótico por infusão. Em menos de vinte e quatro horas tivemos alta, com laudo em francês que eu pedi.
Na hora de pagar, me disseram que não havia nada a pagar: era hospital universitário. O "pagamento" foi uns dez residentes olhando o ouvido dela.
Agora o contraste — e é ele que fecha o argumento
Um ano antes, na Itália, a gente tinha contratado seguro.
Estávamos em Bellagio, no Lago de Como. Nicco escorregou nas pedras com Dinah no colo. A sorte foi ele perceber que estava caindo e jogar o corpo pro outro lado — ela não se machucou, e ele machucou as costelas.
A gente já tinha saído de Bellagio e já estava no Porto quando resolveu procurar um pronto-socorro. A seguradora era a VitalCard, contratada direto, sem intermediário.
Os dois atendimentos, lado a lado
Só com o seguro do cartão, na França: telefone fixo obrigatório, mais de uma hora de verificação, um único pronto-socorro autorizado, sem reembolso fora dele — e ele estava fechado.
Com seguro contratado, em Portugal: acionamento pelo aplicativo, uma ligação, "vá para tal hospital". Quando ele chegou, o nome dele já estava lá. Entre entrar e sair com raio-X feito e remédio na mão: vinte minutos.
Mesma família, mesmo continente, um ano de diferença. A diferença não foi sorte.
Onde eu procuro hoje
Chegamos ao "onde", que era a promessa do texto. Eu não contrato direto no site da seguradora, e não é ali que eu comparo. Eu procuro sempre nos dois comparadores:
Na minha experiência, o preço nesses dois sempre sai melhor do que contratando direto. Eles põem as seguradoras lado a lado e você compara cobertura com cobertura, não só o valor final.
De novo, e sem meias palavras: eu não ganho nada se você usar esses links. Não são de afiliado. Estão aqui porque é onde eu procuro de verdade, e não porque alguém me pagou pra dizer isso.
E o portal de pontos, já que estamos numa série sobre isso?
Essa pergunta é justa, e eu preciso responder pra não parecer que mudei de ideia no meio da série.
Sim, dá pra contratar seguro viagem pelo portal da Livelo e pontuar bem. Assist Card, SulAmérica, Ciclic e Bradesco aparecem por lá, às vezes com taxas altas — eu mesma escrevi isso no post das doze formas de acumular ponto.
Só que ponto não é o critério aqui. Em compra que você já ia fazer de qualquer jeito, passar pelo portal é lucro puro. Seguro viagem é outra categoria: o que você está comprando é a chance de conseguir atendimento no pior dia da sua viagem. Escolher por pontuação um produto cujo valor só aparece no desespero é exatamente o tipo de conta que este blog existe pra não deixar você fazer.
Compare os preços e as coberturas nos comparadores. Se por acaso a mesma apólice, com a mesma cobertura, estiver no portal por preço igual, aí sim — pontue. Nessa ordem.
Uma coisa prática que quase ninguém faz
Dá pra acionar as duas coberturas
Ter o seguro contratado não anula o do cartão. São duas apólices, e dependendo do caso uma cobre mais que a outra — extravio de bagagem, por exemplo, às vezes é melhor no cartão.
Então não é "um ou outro". É contratar o de verdade e saber que o do cartão continua existindo pro que ele cobrir melhor.
O que eu queria mesmo te deixar
Não é "seguro de cartão é ruim". Ele existe, ele cobre, e em muita situação ele resolve.
É isto: ter cobertura e conseguir usar cobertura são duas coisas diferentes, e a diferença entre as duas só aparece no dia em que você não tem cabeça pra lidar com ela.
Se você viaja sozinha e saudável, faça a sua conta. Mas se você viaja com criança pequena ou com pessoa idosa, eu não recomendo depender só do seguro do cartão. Não pelo que ele cobre — pelo que ele exige de você na hora de acionar.
O seguro que eu não contratei naquela viagem custaria uma fração do que custou a hora que eu passei pendurada no telefone de uma recepção, com a minha filha em 77.
