Milhas no dia a dia

Como acumular milhas de verdade: a virada de chave que ninguém explica

Por Diana Marangon Leitura: 26 min Pilar 04 · R$ que voa

É a pergunta que mais me fazem. E a resposta decepciona um pouco no começo, porque não tem truque: milha não se acumula com técnica, se acumula com mentalidade. Você tem que viver e respirar acúmulo. Depois que essa chave vira, o resto é consequência.

De todas as coisas que eu escrevo aqui, essa é disparada a que mais gera mensagem: "Diana, como você junta milha?"

Já respondi essa pergunta muitas vezes, e quase sempre a pessoa espera uma resposta específica. Um cartão. Um site. Um botão escondido. Alguma jogada que ela ainda não conhece e que, uma vez revelada, resolveria a vida dela.

Não é isso. E eu prefiro decepcionar logo no terceiro parágrafo do que fingir que existe atalho.

Milha não é uma técnica. É um jeito de consumir. O que separa quem tem saldo de quem não tem não é conhecimento de regulamento — é a decisão, tomada uma vez e repetida todo santo dia, de nunca mais deixar dinheiro sair de casa sem gerar ponto.

Você tem que viver e respirar acúmulo. Parece exagero. Não é. É literalmente isso.

A virada de chave, em uma frase

Antes: eu queria comprar uma coisa, então eu comprava.

Depois: eu quero comprar uma coisa, então eu paro dois segundos e pergunto por onde essa compra vai passar antes de virar compra.

É só isso. Dois segundos. E esses dois segundos, repetidos ao longo de um ano, são a diferença entre uma pessoa que diz "ah, eu não consigo juntar milha" e uma pessoa com passagem na mão.

Porque a compra vai acontecer de qualquer jeito. O tênis vai ser comprado. O eletrodoméstico vai ser comprado. O presente de aniversário vai ser comprado. A única variável sob o seu controle é o caminho que o dinheiro faz até chegar lá — e é nesse caminho que a milha nasce ou deixa de nascer.

Comigo essa chave virou num lugar improvável: um vídeo de TikTok, visto por acaso, rolando o feed sem procurar nada. Uma criadora explicando que dava pra juntar ponto comprando nas lojas parceiras de um programa. Eu não salvei, não segui, não anotei o nome — e isso me incomoda até hoje, porque o crédito é dela. Se você for essa pessoa, ou souber quem é, me avisa que eu conserto isso aqui.

O que eu lembro com precisão é do tamanho da minha ignorância. Pra mim, Livelo era coisa do Banco do Brasil — o lugar pra onde iam os pontos do meu cartão, e ponto final. Eu não fazia a menor ideia de que existia um portal de lojas, de que comprar por ele pontuava, e de que isso estava aberto pra qualquer pessoa com CPF, cliente do banco ou não.

Ou seja: eu não estava deixando de juntar milha por falta de disciplina. Estava deixando de juntar por não saber que a porta existia. E é exatamente por isso que este post existe — a chance de você estar hoje onde eu estava é grande.

Passo zero: crie sua conta na Livelo hoje

Se você parar de ler aqui, faça uma coisa só: crie uma conta na Livelo. É gratuito, leva menos tempo que assistir a um reels, e é o passo que sustenta todo o resto deste texto.

A Livelo é um programa de pontos independente, criado por Banco do Brasil e Bradesco, e é o maior do tipo no Brasil. Você não precisa ser cliente de nenhum dos dois pra ter conta. Ela funciona como uma espécie de conta-corrente de pontos: eles entram por vários caminhos diferentes e, quando você quiser, saem em direção aos programas das companhias aéreas.

A maioria das pessoas conhece a Livelo só por um desses caminhos — o cartão de crédito. E é justamente esse o caminho mais fraco. O caminho forte é o outro, e é sobre ele que quase ninguém fala.

O hábito que joga o saldo pra estratosfera

A Livelo tem uma vitrine de lojas parceiras. Marcas grandes e pequenas, moda, eletrônico, cosmético, casa, farmácia, viagem — uma lista longa, que muda o tempo todo.

O funcionamento é simples a ponto de parecer bobo: em vez de digitar o nome da loja no Google e comprar direto, você entra pelo site da Livelo, clica em ir para o parceiro, e compra na mesma loja, pelo mesmo preço. A diferença é que agora aquela compra gera pontos na sua conta, além dos pontos que o seu cartão já daria.

Mesma loja. Mesmo produto. Mesmo preço. Um clique a mais.

E a pontuação não é simbólica. No dia a dia, os parceiros costumam pagar de 1 a alguns pontos por real gasto — a Renner, por exemplo, chegou a oferecer 8 pontos por real na categoria infantil e 2 pontos por real nas demais. Mas o que muda o jogo são as campanhas bonificadas, que aparecem toda semana e turbinam lojas específicas por algumas horas ou alguns dias.

Pra você ter a dimensão do teto: em junho deste ano, na campanha dos 10 anos da Livelo, o Passageiro de Primeira registrou uma ação relâmpago de dez horas com parceiros pagando até 20 pontos por real gasto. Vinte. Uma compra de R$ 500 numa loja dessas gera 10.000 pontos — mais do que muita gente acumula em meses de cartão.

É por isso que eu digo que a Livelo é o coração da história. O cartão pontua o quanto o banco quiser. A Livelo pontua o quanto a loja estiver disposta a pagar pra te trazer — e loja em campanha paga muito.

O que isso exige de você não é esforço, é reflexo. Nunca mais comprar online direto. Sempre passar pela vitrine antes. É esse o hábito que precisa virar automático, como pôr o cinto de segurança.

Como comprar pela Livelo sem perder ponto no caminho

  1. Entre pelo site da Livelo, não pela loja. Procure a loja na área de parceiros e clique no botão de ativar e ir para o parceiro. É esse clique que identifica a compra como sua.
  2. Leia a regra da campanha antes de fechar o carrinho. Muitas ofertas valem só para produtos selecionados, e algumas exigem cupom digitado no checkout.
  3. Não misture com outros cupons. Boa parte das campanhas não é cumulativa com cupom de afiliado ou de influenciador. Se você usar os dois, pode ficar sem os pontos.
  4. Compre na mesma sessão. Abrir a loja pela Livelo, fechar, pensar dois dias e voltar direto pelo Google costuma quebrar o rastreio.
  5. Tire print da tela de confirmação. O valor em pontos quase nunca aparece no checkout da loja. Se der problema, o print é a sua prova.
  6. Tenha paciência com o crédito. Os pontos podem levar semanas para cair — em alguns parceiros, até 45 dias corridos. Não é erro, é o prazo.

O dia 10, que é onde mora o melhor da vitrine

Se você guardar uma única data deste post, guarde essa. Todo mês, por volta do dia 10, a Livelo roda uma campanha grande — dezenas de parceiros de uma vez, com a pontuação turbinada só naquele dia.

Dois exemplos de 2026, pra você calibrar a ordem de grandeza: em maio foram mais de 40 parceiros com até 10 pontos por real; em junho, mais de 50 parceiros com até 11. Anoto as datas de propósito, porque número de promoção apodrece rápido. O que não apodrece é a campanha existir todo mês.

Repare no até. Não é uma pontuação única que vale pra loja inteira do Brasil: cada parceiro entra com a faixa dele, e a faixa cheia costuma ser a de quem assina o Clube — em junho, por exemplo, assinante levava 11 pontos por real e os demais clientes, 10. Quem decorar um número vai se frustrar. Quem aprender a conferir, não.

E não confie na data cravada. Quando o dia 10 cai em fim de semana ou feriado, a campanha costuma rodar no primeiro dia útil seguinte. Por isso a regra que eu uso não é "dia 10" — é "por volta do dia 10, eu abro o app e olho". Leva quinze segundos e é a diferença entre pegar a campanha e descobrir dela no dia 12, pelo Instagram, quando já acabou.

A consequência prática disso é a coisa mais barata que este post tem pra te oferecer: compra que não é urgente, segura pro dia 10. O tênis da escola, a troca do liquidificador, o presente de aniversário do mês que vem, a reposição da farmácia. Nada disso precisa acontecer numa quarta-feira qualquer. Você não vai gastar um real a mais nem comprar uma coisa a menos — vai só mudar o dia. É o ajuste de rotina com a melhor relação entre esforço e resultado que eu conheço.

Junte com o hábito da seção anterior e você tem o método inteiro: passe sempre pela vitrine, e o que puder esperar, espere o dia 10.

Agora a parte impopular: o cartão de crédito é superestimado

Essa é a parte do texto em que eu contrario quase tudo que se fala por aí. Prepare-se.

A conversa sobre milhas no Brasil gira quase inteira em torno de cartão de crédito. Qual cartão, qual anuidade, qual bandeira, qual benefício. E o cartão importa — mas ele é, na maioria dos casos, a parte mais lenta e mais fraca do acúmulo.

Pra entender por quê, você precisa saber como o cartão calcula ponto. Ele não pontua por real gasto. Ele converte o seu gasto em reais para dólar e pontua por dólar.

Vamos à conta com números de hoje. O dólar comercial está por volta de R$ 5,10 nesta última semana de julho de 2026. Imagine uma família que passa R$ 20 mil por mês no cartão — e olha que esse já é um gasto alto, bem acima do que a maioria das casas coloca no crédito.

Leia de novo o meio dessa lista. Vinte mil reais passados no cartão, num mês inteiro, num cartão de 2 pontos por dólar, geram algo perto de 7.800 pontos. Não chega perto de uma passagem. E, sinceramente, não chega nem perto do que a mesma família faria comprando uma fração disso pela Livelo em campanha bonificada.

Por isso o meu critério é duro e eu não tenho vergonha dele: cartão de milhas só compensa de verdade se for premium, com pelo menos 3,5 pontos por dólar. Abaixo disso, não é grandes coisas — é um bônus simpático em cima de um gasto que você já ia fazer, e não a engrenagem que sustenta o seu saldo.

Vale dizer o que isso significa na prática, sem romantizar: os cartões que entregam 3,5 pontos por dólar ou mais são produtos de alta renda, com exigência de renda mínima e, na esmagadora maioria, com anuidade. O mercado brasileiro hoje vai de cerca de 2 até 7 pontos por dólar nas faixas Black e Infinite, com os campeões de pontuação pedindo rendas altíssimas. Não é pra todo mundo — e tudo bem que não seja.

A conclusão que eu quero que você tire daqui não é "corra atrás de um cartão premium". É o contrário: se você não tem acesso a um cartão desses, não é por isso que você está fora do jogo. Você só está no jogo por outra porta — a porta da Livelo, que não pede renda mínima nenhuma.

E, claro, o aviso que eu faço questão de repetir toda vez que falo de cartão: nada disso vale se a fatura não for paga integralmente todo mês. Juro de rotativo devora qualquer benefício de pontos numa velocidade assustadora. Milha é o troco de um dinheiro que já ia sair. Nunca é motivo pra ele sair.

A transferência bonificada: onde o saldo dobra

Você acumulou pontos na Livelo. Agora vem a parte que a maioria das pessoas estraga por pressa.

Ponto de Livelo, sozinho, não é passagem. Pra virar passagem, ele precisa ser transferido para o programa de uma companhia aérea — Azul Fidelidade, Smiles, Latam Pass. E aqui está o pulo do gato inteiro:

Nunca transfira sem bônus.

De tempos em tempos, os programas fazem campanhas de transferência bonificada: você manda os seus pontos e recebe do outro lado uma quantidade maior de milhas. Um bônus de 100%, por exemplo, significa que 30.000 pontos Livelo chegam do outro lado como 60.000 milhas. Você dobrou o saldo sem gastar mais um centavo — só por ter esperado o dia certo pra apertar o botão.

Não é raro. Só neste ano, o Melhores Cartões registrou ofertas de até 133% de bônus para o Azul Fidelidade em março, e o Passageiro de Primeira noticiou campanhas de 80% e 90% da Livelo para a Smiles nos primeiros meses de 2026. As promoções mais generosas costumam sair mesmo nesses dois programas — Azul e Smiles —, que são também os mais agressivos na disputa por saldo.

Olhando assim fica óbvio, mas a pressa é traiçoeira. A pessoa abre o app, vê o saldo bonito ali parado, sente aquele friozinho de "vou logo transferir antes que aconteça alguma coisa" — e transfere num dia comum, jogando fora metade do que teria.

Vale gravar duas coisas. A primeira: transferência é caminho de mão única. Ponto que saiu da Livelo e entrou no programa aéreo não volta. Enquanto está na Livelo, ele guarda todas as opções; depois de transferido, ele já escolheu de que jeito vai ser usado.

A segunda: quase toda campanha exige cadastro na promoção antes de transferir. Quem transfere primeiro e lê a regra depois costuma ficar sem o bônus, e aí não tem recurso.

A regra de ouro da transferência

  • Só transfira com bônus vigente. Se não tem campanha, o saldo fica onde está. Ele não estraga na Livelo.
  • Cadastre-se na promoção primeiro. Sempre. É o erro mais comum e o mais caro.
  • Só transfira com uso à vista. Milha parada no programa aéreo tem prazo pra morrer; ponto parado na Livelo tem mais fôlego e mais destinos possíveis.
  • Confira o teto da campanha. Muitas limitam o bônus a uma quantidade máxima por CPF.
  • Desconfie de urgência inventada. Se você não sabe pra onde quer ir nem quando, a melhor decisão quase sempre é não fazer nada.

E a Latam Pass? O contraponto que vale registrar

Reparou que eu falei em Azul e Smiles quando falei de bônus? Não foi descuido.

A Latam Pass é o programa mais difícil de pontuar. As campanhas de transferência para lá costumam ser menos generosas, e o custo de gerar milha ali é o mais alto entre os três grandes. O Melhores Destinos, que todo ano calcula um "valor-alvo" para cada programa a partir das melhores ofertas do ano anterior, colocou para 2026 a referência de R$ 25 por 1.000 milhas Latam Pass, contra R$ 16 na Smiles e R$ 13 no Azul Fidelidade.

Ou seja: milha Latam custa quase o dobro de ponto Azul pra você produzir.

Só que tem o outro lado, e ele é importante: a Latam Pass costuma ser a mais camarada na hora de resgatar. É o programa que, em geral, cobra menos milhas pela mesma passagem. Milha cara de fazer, barata de gastar.

Não é contradição, é matemática. Um programa em que a passagem custa 20.000 milhas e a milha é cara pode sair melhor que outro em que a mesma passagem custa 45.000 e a milha é barata. O que importa nunca é o tamanho do saldo — é quanto de viagem aquele saldo compra.

Por isso eu não trato os três programas como concorrentes que exigem escolha. Trato como três moedas diferentes, cada uma boa numa situação. E a decisão de qual usar é sempre tomada no fim, na hora do resgate, com o preço em reais aberto numa aba do lado.

A conta que decide todo resgate

Falando nisso: existe uma única conta que você precisa saber fazer, e ela não depende de decorar regra de programa nenhum.

Pegue o preço da passagem em dinheiro. Subtraia as taxas que você pagaria mesmo emitindo com pontos. Divida o resultado pela quantidade de milhas pedida. O número que sai é quanto vale cada milha sua naquela emissão específica.

Faça isso três ou quatro vezes e você passa a ter um piso pessoal — um valor abaixo do qual você simplesmente não emite, paga em dinheiro e guarda o saldo. A partir daí, a decisão para de ser emocional. Não é mais "vou usar as milhas porque estou animada": é "essa emissão está boa" ou "essa está ruim".

E use os valores-alvo como termômetro do outro lado da conta. Se você conseguiu gerar milha perto ou abaixo daquelas referências — R$ 13, R$ 16, R$ 25 o milheiro, conforme o programa —, você produziu barato. O preço de tabela, quando se compra ponto direto do programa sem promoção nenhuma, é de R$ 70 o milheiro na Azul e na Latam e R$ 80 na Smiles. A distância entre esses dois mundos é exatamente o tamanho do seu trabalho.

Vou abrir a minha, porque exemplo real vale mais que explicação.

A nossa viagem para a África do Sul saiu quase inteira de milhas. Os trechos grandes — Recife para São Paulo, São Paulo para Joanesburgo e a volta inteira, Cidade do Cabo para São Paulo e São Paulo para Recife — foram todos emitidos com pontos. Em dinheiro, só as taxas de embarque.

Os números, pra você comparar com os seus. Foram 890.105 milhas no total — três pessoas, ida e volta —, e elas não saíram de um programa só: 430.920 pela Smiles, 353.500 pela Azul e 105.685 pelo Latam Pass. De taxa de embarque, pagamos R$ 1.139,79. E as mesmas passagens, em dinheiro, estavam saindo por algo em torno de R$ 4 mil por trecho internacional e perto de R$ 2.100 na ida e volta doméstica — o que colocaria esses trechos em cerca de R$ 34,5 mil, contando as malas.

Aplique a conta de três linhas ali de cima nesses números e você vai ver exatamente quanto valeu cada milha nossa nessa emissão. Não é teoria: é uma viagem que aconteceu, com um saldo que levou tempo pra ser construído do jeito que eu descrevi neste post.

E teve trecho que eu comprei em dinheiro — de propósito

Essa parte é tão importante quanto a outra, e quase ninguém conta.

Os dois voos internos dentro da África do Sul — Joanesburgo para Nelspruit e Nelspruit para Cidade do Cabo — a gente comprou em reais. E não foi por falta de saldo nem por falta de disponibilidade: dava, sim, pra emitir com milhas.

O que não dava eram os horários. As opções disponíveis em milha não fechavam com o roteiro — chegaríamos tarde demais, sairíamos cedo demais, perderíamos uma diária ou um passeio inteiro no meio do caminho. Emitir com pontos ali teria significado economizar dinheiro e gastar viagem.

Então paguei. Foram cerca de R$ 3 mil pelas seis passagens — dois trechos, três pessoas. Sem drama e sem culpa.

E já que é pra abrir a conta, abro inteira: somando as duas coisas, o desembolso real da viagem em passagem aérea foi de pouco mais de R$ 4 mil — os R$ 1.139,79 de taxa nas emissões mais esses R$ 3 mil dos voos internos. Contra os cerca de R$ 34,5 mil que os trechos emitidos em milha custariam em dinheiro, o placar continua sendo o que é. Só que agora está completo, e eu prefiro assim: número que esconde uma linha não serve pra você fazer a sua conta.

Milha não é dogma, é ferramenta. Ela existe pra tornar a viagem possível, não pra virar um esporte em que ganha quem gastou menos dinheiro. Tem hora em que o horário certo vale mais que a economia — e reconhecer essa hora faz parte de saber usar milha bem.

Quem trata pontos como religião acaba fazendo escolha ruim pra não "desperdiçar" saldo: conexão absurda, madrugada com criança, um dia de viagem queimado dentro de aeroporto. O saldo foi preservado e a viagem piorou. Isso não é economia, é troca mal feita.

Clubes de assinatura: fica pro próximo post

Tem um caminho que eu deliberadamente não vou abrir aqui, porque ele merece um texto inteiro: os clubes de assinatura.

Em resumo de duas linhas: Livelo, Smiles, Azul e Latam Pass têm planos mensais em que você paga um valor fixo e recebe uma quantidade certa de pontos todo mês. Nas boas promoções de adesão, é a forma mais barata que existe de produzir milha — o Melhores Destinos apurou que o menor custo do ano passado veio justamente daí, com o plano de 5.000 do Clube Azul saindo a R$ 9 o milheiro numa Black Friday.

Mas clube tem armadilha, tem letra miúda, tem plano que só compensa em situação específica — e tem um detalhe importante: enquanto a assinatura do Clube Livelo está ativa, os seus pontos não expiram. Esse detalhe sozinho já muda a conta pra muita gente.

Clube é assunto de post inteiro, e vai ter o dele. Por ora, guarde só que eles existem, que valem análise e que a decisão depende muito de quanto você voa.

Como não perder o que você levou um ano pra juntar

A forma mais comum de perder milha no Brasil não é resgate ruim nem promoção perdida. É esquecimento.

Os pontos Livelo, pela regra geral do programa, valem 24 meses a partir da data em que entraram — salvo condição diferente prevista numa campanha específica ou a exceção do Clube, que já mencionei. E, quando expiram, o que resta é uma janela curta: só pontos vencidos há até seis meses podem ser recuperados, mediante pagamento de uma taxa. Passou disso, morreram de vez.

Nos programas aéreos a lógica é parecida e as regras mudam com frequência — por isso eu não decoro prazo de ninguém. O que eu faço é o princípio: todo saldo que você não enxerga é um saldo em risco.

O sistema chato que salva saldo

  • Uma lista, um lugar só. Uma linha por programa: nome, login, saldo da última conferida e a data em que você conferiu. Planilha, bloco de notas, papel — tanto faz, desde que exista.
  • Um lembrete recorrente no celular. Aqui em casa é trimestral e dura o tempo de um café: abrir cada programa, olhar o saldo, atualizar a linha.
  • Um e-mail que você lê de verdade. Aviso de expiração chega por e-mail. Se o cadastro está numa caixa que ninguém abre, o aviso não existe.
  • A regra do primeiro do mês. Uma passada rápida nas campanhas vigentes antes de qualquer compra online grande. Cinco minutos.
  • Leia no site do programa, não no grupo de WhatsApp. Regra de milhas muda toda hora e boato envelhece mal.

Três erros que custam caro

Comprar pra pontuar. Esse é o mais perigoso de todos, e o mais fácil de cair. Campanha de 20 pontos por real é maravilhosa quando você ia comprar aquilo de qualquer jeito, e é uma armadilha quando ela cria a compra. Gastar R$ 800 que você não ia gastar pra ganhar 16.000 pontos é pagar caríssimo por milha. A pontuação nunca justifica a compra. Ela só melhora a compra que já estava decidida.

Vender as milhas. Existe um mercado paralelo grande de compra e venda de milhas no Brasil, e ele parece inofensivo. Não é. A maioria dos programas proíbe a comercialização de pontos nos próprios termos de uso, e em junho de 2024 a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu que as companhias aéreas podem, sim, proibir a venda de milhas em seus programas de fidelidade. Emitir passagem para muitos CPFs diferentes ao longo do ano acende alerta e pode levar ao bloqueio da conta — com o saldo inteiro dentro dela.

Entregar login e senha pra alguém. Vale para intermediário, para "agência de milhas" e para o conhecido do conhecido que promete emitir mais barato. Nenhum resgate no mundo vale o risco de perder o acesso à sua própria conta. Se alguém precisa da sua senha pra te ajudar, a resposta é não.

Por onde começar hoje, se você tem zero milhas

Vou reduzir tudo isso a uma sequência curta. Sem planilha de doze abas, sem noite de sexta debruçada sobre painel de pontos — porque essa vida não existe e quem vende ela está vendendo outra coisa.

Os cinco passos, em ordem

  1. Crie a conta na Livelo. Hoje. É de graça e é o alicerce de todo o resto.
  2. Instale o hábito. Nenhuma compra online direto, nunca mais. Sempre pela vitrine de parceiros primeiro. E o que não for urgente, segure pro dia 10. Esse é o passo que mais rende e o único que exige repetição.
  3. Concentre o gasto no melhor cartão que você já tem. Sem trocar de banco, sem correr atrás de produto premium. Só pare de espalhar entre débito, dinheiro e três cartões diferentes.
  4. Deixe o saldo parado até aparecer bônus. Transferência só com campanha, e só depois de se cadastrar nela.
  5. Marque a conferência trimestral. Quinze minutos, quatro vezes por ano, pra saber o que você tem e quando vence.

Nenhum desses cinco passos custa um real a mais do que você já gasta. Nenhum exige que você mude o que compra. Todos mudam só onde o dinheiro passa antes de sair.

E é por isso que eu insisto que a virada é de mentalidade, não de técnica. A técnica cabe num post. A mentalidade é o que faz você abrir a Livelo antes de comprar um liquidificador numa terça-feira à noite, cansada, quando ninguém está olhando e seria muito mais fácil digitar o nome da loja no Google.

É essa terça-feira que constrói a viagem. Não a promoção espetacular que você viu no Instagram — a terça-feira comum, repetida cinquenta vezes.

Eu queria fechar este texto contando da primeira viagem que saiu inteira de milhas, porque daria um final bonito. Só que seria mentira. Eu já viajava com milha antes disso — milha de cartão, juntada devagar, do jeito que quase todo mundo junta.

O que mudou não foi ter começado. Foi a velocidade. Depois que passar pelo portal virou hábito, o acúmulo deixou de crescer somando e passou a crescer multiplicando. E a diferença apareceu no único lugar onde ela interessa, que é o que a gente consegue fazer com o saldo.

Hoje, aqui em casa, faz uns dois anos que a gente só compra passagem em dinheiro pra trecho interno pontual, quando o horário manda — como os dois voos da África que eu contei ali atrás. As viagens principais são sempre de milha. Isso não é uma proeza que aconteceu num dia. É o resultado de um monte de terça-feira comum em que eu abri a Livelo antes de abrir a loja.

Este post é o começo de uma conversa, não o fim

Eu poderia ter enfiado tudo que sei sobre milhas aqui dentro. Não fiz de propósito.

Texto que tenta cobrir o assunto inteiro de uma vez não é generoso — é indigesto. A pessoa lê três telas, se perde no meio de sigla, regra e exceção, e fecha a aba sem ter feito nada. Informação demais paralisa tanto quanto informação de menos.

Então milhas vira assunto recorrente aqui no blog, um tema por post, cada um com as contas abertas:

O que ainda vem por aí

  • Clubes de assinatura das companhias aéreas. Quanto custa o milheiro em cada plano, qual a letra miúda e em que situação cada um compensa de verdade — porque tem clube que só faz sentido pra um perfil bem específico de viajante.
  • Hospedagem que vira ponto. Aqui em casa o Clube ALL, da Accor, é peça fixa. E existe uma sacada de reserva que muita gente não conhece: dá pra passar pelo caminho certo e fazer a hospedagem pontuar no Latam Pass. Merece post próprio, com o passo a passo.

Por enquanto, o que está neste texto já é mais do que suficiente pra você começar — e começar é a parte que ninguém pode fazer por você.

O exercício desta semana

Nada de trocar de cartão, nada de assinar clube, nada de estudar regulamento. Só isso:

Abra sua conta na Livelo. Depois abra a lista de lojas parceiras e procure três marcas onde você compra. Não as que você gostaria de frequentar — as reais, aquelas que aparecem na sua fatura todo mês.

Agora olhe quanto elas estão pagando por real gasto hoje. Multiplique pelo que você gastou nelas no mês passado.

Esse número que apareceu na sua cabeça são os pontos que já existiam e não nasceram. Não porque faltou conhecimento, cartão ou sorte — porque faltou um clique.

A boa notícia é que esse é o tipo de coisa que a gente conserta na próxima compra.

Quer as contas abertas dos clubes de assinatura?

O próximo post do pilar de milhas destrincha os clubes — Livelo, Smiles, Azul e Latam Pass — com preço por milheiro, letra miúda e em que situação cada um compensa de verdade. Assine a newsletter pra receber quando sair.

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Diana Marangon

Diana Marangon descobriu o TDAH tarde e o hiperfoco cedo — hoje ele mora em planilha de viagem e geladeira organizada. Servidora pública federal há 20 anos, casada com o Nicco, mãe da Dinahzinha. Escreve sobre a matemática escondida dentro de casa: cozinha sem desperdício, finanças a dois, viagens bem armadas e milhas. Publica toda semana no Organiza & Prospera.