Robben Island não foi o primeiro lugar que a gente visitou. Cronologicamente ela aparece lá pro fim, quando já estávamos na Cidade do Cabo — escrevo isto ainda na África do Sul, com a viagem em curso. Mas eu não vou abrir esta série pela ordem dos dias, porque a ordem dos dias não é a ordem da importância.
Dinahzinha tem seis anos. A África do Sul é o décimo segundo país dela. Ela acha isso normal — e ela deveria mesmo achar, é o mundo que ela conhece. Ela entra num avião do jeito que outra criança entra num ônibus. Um dia ela vai escolher a faculdade que quiser, o trabalho que quiser, a vida que quiser. Ela é menina e vai ser mulher, e nada disso vai depender de uma licença.
Eu queria muito que ela entendesse, mesmo que só um pedacinho, que isso não caiu do céu.
Ela não chegou crua nessa ilha. Nos dias que a gente passou aqui eu conversei muito com ela sobre o Apartheid — o que foi, por que foi, quem decidiu, o que acontecia com quem era pego do lado errado da regra. Ela chegou em Robben Island sabendo onde estava pisando.
Mas saber e entender são coisas diferentes, e não só pra criança de seis anos. A informação ela já tinha. O que faltava era o lugar onde ela ia parar dentro dela.
Robben Island é esse lugar. Porque ali a coisa não chega por narração — chega por gente viva, na sua frente, contando o que aconteceu com ela.
O guia se apresentou por um número
A gente desembarcou, entrou no ônibus e chegou no pavilhão dos presos. E o homem que ia nos guiar por ali começou assim, em inglês:
— My name is 68/86.
Foi em inglês, e ele disse o número inteiro, algarismo por algarismo: sixty-eight, slash, eighty-six.
Não é apelido nem efeito dramático de roteiro turístico. O guia de Robben Island é um ex-prisioneiro político — ele esteve preso naquele lugar.
E dentro daquelas instalações o nome civil não era permitido. Preso não era chamado pelo nome: era chamado pelo número. Era assim que o guarda se dirigia a ele, era assim que ele constava no papel, e foi assim, todos os dias, por anos, que ele foi tratado.
Pensa no tamanho disso. Não é só burocracia de presídio. É um sistema que decidiu que aquelas pessoas não precisavam de nome — e nome é a primeira coisa que alguém te dá quando você nasce.
Ele se apresenta pelo número porque foi esse o nome que aquele lugar deu a ele.
Só depois ele diz o nome: Sello Motse.
Eu levei alguns segundos pra processar. A gente estava numa visita guiada, com fone, câmera, gente tirando foto — e o guia era a própria pessoa. Não era um funcionário treinado pra contar a história de outros. Ele estava mostrando o corredor por onde ele andou.
Foi aí que a visita deixou de ser passeio.
Ele pediu que um menino se levantasse
Em algum momento da fala, o Sello olhou pro grupo e pediu que se levantasse um jovem de mais ou menos treze anos.
Levantou um menino de doze.
E ele explicou, com o menino de pé na frente de todo mundo, que Robben Island teve presos daquela idade. Treze anos.
Ninguém falou nada. Aquele silêncio é a razão pela qual eu abro a série por este post. Não tem frase, não tem documentário, não tem livro que faça o que aquele menino de pé fez em quatro segundos. A idade saiu do papel e ganhou um corpo do tamanho certo, ali, respirando.
Dinahzinha estava do meu lado. O guia falava inglês e ela não pegou cada palavra, mas não precisou: ela viu um menino pouco maior que ela de pé, e viu a cara dos adultos em volta. A conta ela fez sozinha.
Vinte e sete anos — e a pergunta que eu não vou responder
A gente viu a cela do Mandela. É pequena. Você olha aquilo por uns segundos e a conta começa a se montar sozinha na cabeça.
*** A CONTA QUE NINGUÉM FAZ ***
Ele virou símbolo. Virou prêmio, virou nome de rua e de praça, virou capítulo de livro didático no mundo inteiro. A ONU transformou o dia do aniversário dele em data internacional.
Mas ele foi preso aos quarenta e quatro e saiu aos setenta e um. Era casado havia pouco mais de dois anos. Não criou os filhos. Perdeu a infância inteira das filhas — não uma parte, a infância inteira.
E aí vem a pergunta que eu fiquei remoendo no barco de volta: a que custo? Uma coisa compensou a outra?
Eu não vou responder isso aqui. Não porque seja delicado, mas porque eu honestamente não sei — e desconfio de qualquer texto que saiba. Tem uma tentação enorme de fechar um parágrafo desses com uma frase bonita, do tipo "e ele faria tudo de novo". Talvez fizesse. Eu não tenho como saber, e as filhas dele também não foram consultadas quando a conta foi cobrada.
Fica em aberto. Eu acho que tem que ficar.
O passaporte era do avô dela
A outra parte da visita foi conduzida por uma guia jovem, de uns vinte anos. Em algum momento ela tirou da mão um documento e mostrou pro grupo.
Era o caderninho que as pessoas negras eram obrigadas a carregar durante o Apartheid. Chamavam de dumb passport — o passaporte de burro, no sentido pejorativo mesmo. Sem ele na mão, a pessoa podia ser presa na rua, e a multa era maior do que tudo que ela tinha.
Aí ela disse de quem era aquele caderninho.
Era do avô dela.
Eu confesso que essa foi a hora em que eu me mexi por dentro. Porque avô não é figura de livro de história. Eu convivi com o meu avô até quase os trinta anos. Avô é gente que senta na sua mesa, que te dá bronca, que guarda coisa em gaveta.
Aquele documento não é de outro século no sentido em que a gente usa "outro século" pra dizer "muito tempo atrás". Foi ontem. Tem gente viva, andando naquela ilha, guiando turista, cujo avô precisava de licença por escrito pra estar na própria cidade.
É isso que Robben Island faz e um museu comum não faz. Ela não te conta que aconteceu. Ela te apresenta a quem estava lá.
O que Dinahzinha levou
A virada não foi ela descobrir o que foi o Apartheid — isso ela já sabia, a gente tinha conversado muito nos dias anteriores. A virada foi outra, e é maior.
Foi ela entender que a liberdade que ela tem não veio de graça. Que ela poder viajar, estudar, escolher um dia a faculdade que quiser — e que boa parte das mulheres, pelo menos no mundo ocidental, possa fazer o mesmo — é coisa que foi arrancada. Que muita gente morreu, perdeu tudo, ficou presa e foi torturada pra que isso hoje pareça normal.
Ela tem seis anos e essa frase é grande demais pra caber inteira. Mas ela entrou. Eu vi entrar.
Não sei o que ela vai lembrar disso aos vinte. Talvez o barco, o vento e o moço do número. Mas ela esteve lá, no lugar, com a pessoa — e isso escola nenhuma dá.
E teve uma mulher, trezentos anos antes
Tem uma coisa que eu só fui juntar depois, já no barco de volta: aquela ilha engoliu uma mulher muito antes de engolir o Mandela.
O nome dela era Krotoa. Era khoi, nasceu por volta de 1643 e foi criada dentro da casa de Jan van Riebeeck — o holandês que fundou a colônia no Cabo. Os colonizadores a chamavam de Eva.
Ela aprendeu neerlandês e virou a principal intérprete entre os holandeses e o povo dela. Pensa no tamanho disso por um segundo: durante anos, aqueles dois mundos só conseguiram conversar através da boca de uma mulher khoi. Ela era a ponte inteira.
Casou em 1664 com um dinamarquês, no primeiro casamento cristão registrado no Cabo entre um colono e uma nativa. O marido morreu numa expedição. Ela ficou viúva, com três filhos e sem nada — e a mesma colônia que dependeu dela para existir a chamou de imoral e a baniu para Robben Island em 1669. Morreu na ilha em 29 de julho de 1674, com uns trinta e um anos.
E tem um detalhe que me pegou mais do que a história toda: não sobrou retrato dela. Nenhum. A mulher sem a qual aqueles dois mundos não teriam se entendido não tem rosto guardado em lugar nenhum — só descrições escritas pelos homens que a conheceram. O que circula por aí como sendo o rosto dela é ilustração feita séculos depois, por gente que nunca a viu.
Contei essa história pra Dinahzinha do jeito que dá pra contar pra uma menina de seis anos. E aí aquilo que eu tinha dito antes, sobre a liberdade dela não ter caído do céu, ganhou uma data bem mais antiga do que eu imaginava.
Catorze coisas que eu aprendi naquela ilha
- O nome quer dizer "focas". Robben é foca em holandês. Os navegadores batizaram a ilha pelo que encontraram nela.
- Antes de tudo, foi entreposto. Ponto de parada e reabastecimento na rota das navegações rumo ao Oriente.
- Depois virou hospício e colônia de leprosos, de 1846 a 1931. Antes de se saber que a hanseníase só se transmite por contato prolongado, os doentes eram confinados ali até morrer — e o corpo não podia voltar pro continente. O cemitério dos leprosos continua lá, perto do farol.
- A mulher mais conhecida presa ali morreu ali. Chamava-se Krotoa, era khoi, nasceu por volta de 1643 e cresceu dentro da casa de Jan van Riebeeck, o fundador da colônia holandesa no Cabo. Os holandeses a chamavam de Eva. Ela falava neerlandês melhor que o próprio tio e virou a principal intérprete entre os holandeses e o povo dela — ou seja, foi a mulher pela boca de quem os dois mundos se entenderam. Casou em 2 de junho de 1664 com o dinamarquês Pieter van Meerhoff, no primeiro casamento cristão registrado no Cabo entre um colono e uma nativa. Ele morreu numa expedição. Ela ficou viúva, com três filhos e sem nada, foi banida para Robben Island em março de 1669 por "comportamento imoral", e morreu na ilha em 29 de julho de 1674, com uns trinta e um anos.
- Na prisão política, só homens. De 1961 em diante, Robben Island foi presídio masculino.
- Adolescentes de treze anos foram presos ali.
- O recordista foi Jafta Masemola, do PAC, conhecido como Bra Jeff: preso em 21 de março de 1963 e solto em 15 de outubro de 1989. Vinte e seis anos — algumas fontes falam em vinte e oito.
- Mandela ficou dezoito anos ali e foi transferido em 31 de março de 1982 para Pollsmoor, no continente, junto com Sisulu, Mhlaba e Mlangeni. O governo nunca explicou o motivo; ele próprio dizia acreditar que era mais uma forma de castigo.
- A cela dele tinha dois metros por dois, e ele dormia no chão.
- Beliche só chegou em 1979 — e não deu pra todo mundo. A maioria continuou no chão.
- O chuveiro era água do mar: fria e salgada.
- A pedreira de calcário cegou gente. O trabalho forçado era quebrar pedra sob o sol, e o branco do calcário devolvia a luz na cara dos presos o dia inteiro. Mandela saiu de lá com a vista danificada para sempre, e não foi o único.
- A pena continuava depois da soltura. Ex-preso político entrava numa lista e não era contratado em lugar nenhum. O nosso guia passou vinte anos sem conseguir trabalho — tendo cumprido seis.
- Hoje a ilha é habitada só por funcionários do museu, e a maioria dos guias dos pavilhões é de ex-detentos.
Por que isso é um post de viagem
Este blog é sobre a matemática escondida dentro de casa, e eu passo a maior parte do tempo aqui defendendo que viagem boa é viagem bem calculada. Continuo achando.
Mas nem tudo o que a viagem entrega cabe numa planilha. A gente gasta milha, gasta dia de férias e gasta paciência levando criança pra longe, e às vezes o retorno vem em forma de uma tarde que não se compra.
Se você está levando o seu filho pra outro país e está montando o roteiro só com aquário, parque e sorvete, eu sugiro abrir espaço pra um lugar difícil. Não um lugar violento, não um lugar que dê pesadelo — um lugar verdadeiro, com gente que viveu aquilo contando. Criança aguenta muito mais do que a gente imagina, desde que tenha um adulto do lado pra segurar a mão e responder as perguntas depois.
Robben Island foi a melhor coisa que eu e o Nicco conseguimos dar pra Dinahzinha nesta viagem. E foi in loco, do jeito que só ali dava pra ser.
Se você for: o que eu queria ter sabido
- O embarque é no Nelson Mandela Gateway, no V&A Waterfront. Pro barco das 11h, esteja lá às 9h50, no máximo. Não é exagero.
- O terminal é um labirinto — escadas que sobem, escadas que descem, raio-x e revista. E enche.
- Não confie na orientação de um funcionário só. Um guarda nos mandou pro lugar errado e outra funcionária corrigiu. Confirme com uma segunda pessoa antes de entrar em fila.
- Leve casaco. A travessia é de barco, dura cerca de meia hora e é ventosa e fria mesmo em dia de sol.
- A visita inteira leva cerca de 3h30: barco, ônibus até o pavilhão dos presos e a cela do Mandela, e outro ônibus até a pedreira de calcário.
- Criança paga meia. Se ninguém te oferecer, pergunte — isso vale pra quase tudo na África do Sul, e eu escrevi um post inteiro só sobre os preços que só aparecem se você perguntar.
Uma última coisa, e essa é sobre respeito.
Eu tenho foto do dumb passport e vou usar — mas borrada no retrato, no nome e no número. Dá pra ver o documento, o estado dele, o que estava escrito ali dentro. Não dá pra identificar o homem.
Não é exagero meu. Ninguém pediu autorização àquele senhor pra que o documento dele virasse ilustração de post de blog brasileiro, e ele não tem mais como dizer se queria. A neta mostra o caderninho pro grupo porque ela escolheu contar essa história — isso é dela. O rosto e o nome do avô não são meus pra distribuir.
Pela mesma razão não uso foto dela. É uma moça de uns vinte anos, trabalhando, e o fato de ela estar num ponto turístico não transforma a família dela em material meu.
Com o Sello foi diferente, e é justo registrar: ele autorizou. Posou com a gente, sabia que a foto ia sair em post, e ainda deixou o e-mail dele pra receber o link quando o texto estivesse no ar. Então a foto dele aqui está com o consentimento dele, e ele vai ler isto.
É essa a diferença, e ela não é burocracia: uma pessoa disse sim, a outra não foi perguntada. Se você for, pense nisso antes de levantar a câmera. As pessoas ali não são cenário.
E aí, no fim, apareceram os pinguins
Eu ia terminar este post no parágrafo de cima. Mas seria mentira, porque não foi assim que o dia acabou.
No fim, a gente viu pinguins.
Pinguim de verdade, na pedra, no vento, indo e voltando da água por conta própria. Nem eu nem Dinahzinha tínhamos visto pinguim fora de aquário. Nenhuma das duas. Eu faço quarenta e quatro anos daqui a duas semanas, e aquela foi a primeira vez que eu vi um bicho daquele decidindo sozinho pra onde ir.
A gente ficou ali um tempo, as duas, sem falar quase nada. E eu me senti um pouco criança de novo — não no sentido bobo da frase, mas no sentido literal: eu estava vendo uma coisa pela primeira vez, do lado de alguém que também estava.
Achei importante contar isso junto. Porque não é contraditório, é o dia inteiro. Dá pra sair de um lugar que te aperta o peito e, meia hora depois, estar rindo de pinguim na pedra com a sua filha. A viagem é as duas coisas, e a criança leva as duas.
Ela chegou em casa sabendo o que é liberdade e sabendo como é um pinguim. Eu assino embaixo desse par.
