Milhas no dia a dia

Por que gastei MAIS milhas de propósito (e por que foi a decisão certa)

Por Diana Marangon Leitura: 10 min Série Milhas · 01

Três pessoas, dois continentes, ida e volta. Em dinheiro, essa viagem custaria em torno de R$ 34,5 mil. Eu desembolsei R$ 1.139,79. E o mais estranho da história: eu podia ter gasto menos milhas do que gastei, vi essa opção na tela, e escolhi a mais cara de propósito.

Escrevo isto de Stellenbosch, com a viagem ainda em curso — a gente volta no dia 8. Então trata este post como boletim de campo, não como retrospectiva de quem já está de volta com tudo digerido.

Alguns links deste post são de afiliado. Se você comprar por eles, eu recebo uma comissão — sem custo nenhum a mais pra você. Só indico o que eu usei de verdade nessa viagem.

A pergunta que mais me fazem, de longe, é essa: como você viaja tanto? A resposta curta é milha. A resposta longa é este post, e ele não começa onde a maioria dos tutoriais começa.

Quase tudo que você lê sobre milhas ensina uma coisa só: emita pelo trecho que custar menos milha. É a regra mais repetida do assunto e é a que me fez perder dinheiro por muito tempo.

Porque ela ignora três contas que quase ninguém faz. E dessa vez, quando eu fiz as três, a resposta veio ao contrário do manual.

Os números, sem enfeite

Somos três: eu, o Nicco e a Dinah, de seis anos. Saímos de Recife, conectamos em São Paulo, voamos pra Joanesburgo, e voltamos da Cidade do Cabo — com uma parada em Luanda no caminho. Emiti tudo em milhas, distribuído em três programas.

Uma observação que parece chata e é a coisa mais importante desta tabela: a linha da Smiles não é R$ 0 porque a Smiles não cobra taxa. Ela cobra — taxa de embarque e taxa de combustível. Eu é que escolhi pagar essas taxas em milhas, opção que a Smiles oferece. Ou seja: a taxa está lá, escondida dentro daquelas 430.920.

Guarda isso, porque é o erro de leitura mais fácil de cometer numa tabela de milhas e eu vou voltar nele no fim.

A opção mais barata que eu recusei

Quando eu estava montando a emissão, cheguei a pesquisar fazer Recife → São Paulo → Joanesburgo tudo pela LATAM. Não guardei print — então trata este número como memória, não como comprovante — mas era algo em torno de sessenta e poucos mil milhas por trecho. Em quantidade de milha, teria sido mais barato do que o que eu acabei fazendo.

Não peguei. Por três motivos, em ordem de quanto me custaria ignorar cada um.

Motivo 1: minhas datas já não eram minhas

Quando fui emitir, eu já tinha comprado os voos internos na África e já tinha reservas fechadas — inclusive o lodge do Kruger, que eu peguei bem mais barato justamente por ser tarifa não-reembolsável.

Tarifa não-reembolsável é um acordo: você aceita perder a flexibilidade em troca de preço. Eu topei o acordo de olhos abertos. Só que, no instante em que eu topei, aquelas datas deixaram de ser negociáveis.

E o voo barato da LATAM não encaixava nelas.

Não adianta economizar quarenta mil milhas num voo que te faz perder uma diária não-reembolsável de lodge. A emissão tem que servir ao roteiro que você já comprou — e não o contrário. Essa é a hierarquia, e ela é fácil de inverter quando a tela está mostrando um número tentador.

Motivo 2: a conta da bagagem, que quase ninguém faz

Esse é o motivo que mais gente ignora, e é onde estava o dinheiro grande.

A tarifa mais barata da LATAM não inclui bagagem despachada. E a gente não estava indo passar um fim de semana: três pessoas, quase um mês, inverno na África do Sul — e ainda por cima com a certeza de que a gente ia voltar carregada de vinho, porque a rota passa pelas Winelands e a gente comprou bastante.

Uma mala extra custa, em média, R$ 700. Faz a conta comigo:

Repara no número do meio: só as três malas da ida dariam R$ 2.100 — que é mais ou menos o preço de uma passagem doméstica ida e volta comprada em dinheiro. Eu pagaria uma passagem inteira só para levar roupa.

Do outro lado, o pulo do gato: o voo internacional que eu emiti é operado pela TAAG. E aqui está a parte que muda o jogo — tanto a emissão pela Smiles quanto a pela Azul colocaram a gente exatamente no mesmo voo da TAAG. Programa diferente, avião igual. E a TAAG dá duas malas de 23kg por pessoa, incluídas.

Seis malas grátis contra seis malas a R$ 700. A economia de milha da LATAM não sobreviveria a isso.

É por isso que eu insisto tanto nesta pergunta, que ninguém faz na hora de emitir: quem opera o voo? Não quem te vendeu — quem coloca o avião no ar. A franquia de bagagem é de quem opera. Você pode comprar pela Azul, pela Smiles ou por qualquer outro programa e estar voando na mesma aeronave, com a mesma regra de mala.

Duas coisas que eu levo sempre e que existem por causa dessa conta: uma balança de bagagem portátil (também no Mercado Livre) — porque descobrir excesso de peso no balcão do aeroporto custa muito mais caro do que a balança — e, na volta, os protetores de garrafa (no Mercado Livre), que é o que permite trazer vinho sem rezar.

Motivo 3: nem toda milha vale a mesma coisa

Esse é o motivo mais abstrato dos três, e o que demorou mais pra eu entender.

Milha não é dinheiro. Dinheiro é fungível: mil reais são mil reais, não importa de onde vieram. Milha não funciona assim. Cada programa tem uma dificuldade diferente de acumular e um poder de compra diferente na hora de gastar.

Na minha configuração — e faço questão da palavra minha, porque isso muda de pessoa pra pessoa — Smiles e Azul entram com muito mais facilidade do que LATAM Pass. No meu caso tem um motivo bem concreto: meu cartão do Banco do Brasil despeja pontos na Smiles. Milha que entra fácil é milha que eu reponho fácil. Milha que entra devagar é milha que eu preciso pensar duas vezes antes de queimar.

Só que isso ainda é intuição. Eu queria o número. Então fui calcular quanto cada milha realmente comprou nesta viagem.

A conta que fechou o argumento

O jeito de medir isso chama CPM: quanto você extraiu, em reais, a cada mil milhas gastas. Pega o preço que a passagem teria em dinheiro, tira as taxas que você pagou do bolso, e divide pelas milhas que saíram.

Os preços em dinheiro aqui são os que eu via na época, e vão como estimativa: em torno de R$ 4 mil por trecho internacional (com taxas, sem mala) e algo perto de R$ 2.100 na ida e volta doméstica.

Olha o que apareceu ali. A milha LATAM rendeu quase o dobro das outras: R$ 54,29 contra R$ 29,86 por mil.

Eu esperava confirmar que a milha LATAM era mais valiosa porque é mais difícil de juntar. O número disse uma coisa melhor: ela é mais valiosa porque compra mais, pelo menos no trecho doméstico. Não é escassez. É poder de compra.

E aí a decisão que parecia contraintuitiva vira a única óbvia: eu queimei 784 mil milhas baratas justamente para não queimar as caras — e as caras eu usei no único trecho onde elas rendiam quase o dobro. Gastei mais milha no total e, mesmo assim, gastei melhor.

Repara também na última linha do cupom. A bagagem que eu não paguei valorizou cada mil milhas em R$ 4,72. Uma franquia de mala rendeu mais do que muita promoção de transferência. Isso não aparece em lugar nenhum quando você compara emissões só pela quantidade de milha.

No fim, o placar da viagem: R$ 1.139,79 de desembolso real contra cerca de R$ 34,5 mil se fosse tudo em dinheiro, contando as malas.

O quebra-cabeça de emitir com criança

Tem um detalhe da nossa emissão que costuma surpreender quem está começando. A gente não viajou os três no mesmo programa. Cada adulto "carregou" a Dinah num trecho diferente:

Como ficou a distribuição

  • Ida: eu e a Dinah pela Smiles, o Nicco sozinho pela Azul.
  • Volta: eu sozinha pela Smiles, o Nicco e a Dinah pela Azul.

Isso não foi capricho: foi onde havia assento disponível em milhas, em cada programa, em cada data. Você não precisa emitir a família inteira junta no mesmo programa. A regra que importa é que a criança viaje sempre acompanhada de um adulto responsável no mesmo bilhete — e, respeitado isso, dá pra distribuir os passageiros conforme a disponibilidade.

Foi exatamente essa flexibilidade que permitiu emitir tudo em milhas. Se eu tivesse insistido em colocar os três no mesmo programa, não tinha assento — e aí a viagem teria virado compra em dinheiro. Vou destrinchar essa mecânica com calma num post só dela, porque tem mais coisa aí do que cabe aqui.

De volta à armadilha do começo

Lembra da linha "R$ 0" da Smiles?

Se você olhar minha tabela rápido, a conclusão parece óbvia: a Smiles é imbatível, cobrou zero de taxa enquanto a Azul cobrou R$ 576,94 no mesmo voo. É errado, e é errado de um jeito perigoso, porque parece um achado.

A Smiles cobrou taxa igual — inclusive taxa de combustível, que não é pouca coisa. Eu só paguei em milha em vez de real. E como o comprovante me deu um número único, hoje nem eu consigo mais separar quanto daquelas 430.920 foi passagem e quanto foi taxa.

Ou seja: a coluna de taxa não serve para comparar programas. Ela mostra a forma de pagamento, não o custo. A única comparação honesta é a de cima — quanto saiu no total, em milha e em dinheiro, e quanto aquilo comprou.

Foi essa emissão que me ensinou isso, e me ensinou depois de feita. Fica aqui pra você não descobrir do mesmo jeito.

As seis perguntas antes de emitir qualquer coisa

Antes de apertar o botão

  • 1. Esse voo encaixa nas datas que eu já travei — principalmente nas reservas não-reembolsáveis?
  • 2. A tarifa inclui bagagem despachada? Quantas malas eu realmente vou precisar, na ida e na volta?
  • 3. Quem opera este voo, e não só quem me vendeu? Qual é a franquia de bagagem de quem opera?
  • 4. Estou gastando milha que eu reponho fácil ou milha que demora a voltar?
  • 5. Dá pra distribuir os passageiros entre programas diferentes pra aproveitar a disponibilidade?
  • 6. Somando milhas + taxas + bagagem, qual opção é realmente mais barata no total?

Se você responder essas seis antes de emitir, já está fazendo mais conta do que a maioria — inclusive mais do que eu fazia até pouco tempo atrás.

Porque no mundo das milhas a conta mais cara é sempre a que a gente não faz.

Nos próximos posts eu abro cada uma dessas pontas separadamente: a conta da bagagem em detalhe, como calcular quanto vale a sua milha, o quebra-cabeça de emitir com criança, e — o que mais me perguntam — de onde saíram essas 890 mil milhas, sem comprar nenhuma.

A série Milhas está começando

Este é o primeiro de uma sequência sobre como eu junto e como eu gasto milha — um assunto por post, com os meus números na mesa. Vem por aí: a conta da bagagem, como calcular quanto vale a sua milha e as estratégias de acúmulo que financiaram esta viagem.

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Diana Marangon

Diana Marangon descobriu o TDAH tarde e o hiperfoco cedo — hoje ele mora em planilha de viagem e geladeira organizada. Servidora pública federal há 20 anos, casada com o Nicco, mãe da Dinahzinha. Escreve sobre a matemática escondida dentro de casa: cozinha sem desperdício, finanças a dois, viagens bem armadas e milhas. Publica toda semana no Organiza & Prospera.