Eu estava num quarto de hotel na África do Sul. Passei o dia fora, voltei, jantei, botei a Dinahzinha pra dormir. Sentei com o notebook por volta das nove da noite com duas horas pela frente antes de o meu próprio sono ganhar.
Nessas duas horas, na noite do dia 29 e na noite do dia 30 de julho, saiu todo o conteúdo que este blog e as redes dele publicaram na semana inteira seguinte.
Não é força de expressão. Eu contei os arquivos:
*** UMA SEMANA DE TRABALHO ***
29 DE JULHO A 1º DE AGOSTO DE 2026
Cinco daqueles oito vídeos saíram numa noite só. A do dia 30.
E antes que isso soe como propaganda de curso: eu não escrevi nenhuma dessas 3.833 linhas de código. Eu não sei escrever código. Eu descrevi o que queria, li o que voltou, apontei o que estava errado, e mandei consertar. Foi isso.
A fronteira — e ela importa mais que os números
Este blog vive de número conferido. Quando eu escrevo que a viagem custou tanto, ou que foram 890.105 milhas, aquilo é a minha planilha, o meu extrato, o meu erro quando erro.
Então, antes de qualquer outra coisa, eu preciso ser muito clara sobre onde fica a linha:
Quem fez o quê
- A IA executou a produção. Renderizou vídeo, gerou imagem, montou layout, conferiu tipografia, agendou nas redes. Trabalho braçal, repetitivo, demorado — o tipo de coisa que me faria desistir de publicar.
- A viagem, os números, os erros e as opiniões são meus. A IA não foi à África do Sul. Não emitiu as passagens. Não decidiu que o cartão de crédito é a parte mais fraca do acúmulo — essa opinião é minha, é impopular, e eu banco.
Eu insisto nisso porque a confusão entre as duas coisas é o que faz muita gente, com razão, torcer o nariz pra conteúdo feito com IA. Se você terceiriza a opinião, não sobrou nada seu. Se você terceiriza a renderização de um vídeo, você só deixou de passar três horas arrastando caixinha no editor.
A afirmação interessante aqui não é "a IA faz o meu conteúdo". É: eu não virei programadora, não terceirizei o que eu penso, e ainda assim publiquei todo dia.
Por que um pilar novo
Este blog tem quatro pilares. Cozinha, finanças do casal, viagem e milhas. Todos eles mostram o resultado: a geladeira que parou de jogar comida fora, a fatura que parou de assustar, as milhas que viraram passagem.
O que nunca apareceu foi o método. O leitor vê a planilha pronta e não faz ideia de como ela ficou pronta. E acontece que a coisa mais útil que eu tenho pra contar talvez seja justamente essa — porque ela não serve só pra milhas. Serve pro cardápio da semana, pra lista de mercado, pro roteiro de viagem, pra qualquer coisa da sua casa que hoje mora inteira na sua cabeça.
Por isso o pilar novo tem uma regra, e ela vale pra todo post que sair aqui:
A regra desta seção
- Todo post nasce de um problema que já apareceu em outro pilar do blog. Nada de assunto solto de tecnologia. Se não resolve algo da sua casa, não entra.
- Todo post mostra uma coisa real minha. O arquivo, o vídeo, o número, o print. Nunca "5 prompts para transformar sua vida".
- Todo post conta os erros. Texto sobre IA sem erro é propaganda.
Como funciona, sem palavra difícil
Eu converso. É literalmente isso.
Eu abro uma conversa e digo, com as minhas palavras, o que eu quero: "preciso de seis vídeos curtos sobre o post das milhas, com narração, no formato do Instagram, com a identidade visual do blog". E aí a coisa vai e volta. Ela me devolve um roteiro, eu digo que o gancho está fraco. Ela devolve outro, eu digo que aquele número está errado. Ela corrige. Quando o roteiro está bom, ela produz.
A parte que mais me perguntam é a da voz. Os oito vídeos são narrados, e não sou eu falando — é uma voz sintética. Isso está dito aqui porque me parece o mínimo: se um dia for a minha voz de verdade, eu também vou dizer.
O que faz isso funcionar de dentro de um hotel, com duas horas, não é nenhuma ferramenta específica. É que a fila de produção não depende mais de eu estar disposta. No dia em que eu chego morta, a fila já está cheia até sexta.
Os quatro erros da semana
Essa é a parte que eu mais queria escrever, porque é a que ninguém mostra.
1. Um vídeo inteiro falou espanhol. A voz sintética decide o idioma pedaço por pedaço, isolado. Um trecho em que todas as palavras também existem em espanhol foi lido como se fosse espanhol. Eu ouvi, achei estranhíssimo, e mandei consertar. A solução foi virar regra: todo trecho de narração agora precisa ter pelo menos uma palavra que só existe em português, e existe uma conferência automática que se recusa a rodar se algum trecho não tiver.
2. "Livelo" saiu "Livélo". Sotaque errado, na palavra que mais aparece no post. Foram geradas três pronúncias diferentes, eu ouvi as três e escolhi a certa.
3. Uma seta virou um quadradinho. Aquele símbolo de flecha (→) não existia em nenhuma das cinco fontes usadas nas imagens, então ele aparecia como um retângulo vazio. Foi preciso desenhar a seta à mão, em código.
4. Acentos sumiram. Em texto tudo em maiúsculas, escrito por mim mesma, foram embora acentos de palavras como "três", "diferença" e "dólar". Peguei olhando as imagens uma por uma.
Nenhum desses quatro erros foi encontrado por mágica. Todos foram encontrados porque eu olhei e ouvi o que saiu, antes de publicar.
É por isso que eu não acho que a IA esteja tirando o trabalho de ninguém aqui. Ela mudou o meu trabalho de lugar: eu parei de ser quem executa e virei quem revisa e decide. E revisar é um trabalho de verdade. Quem promete que não é, está vendendo alguma coisa.
Quanto custa
Sendo honesta, porque post que dá a impressão de que é tudo de graça não ajuda ninguém a decidir nada.
São quatro coisas. Duas pequenas: a voz sintética que narra os vídeos e a ferramenta que agenda os posts nas redes, que saem por volta de 20 dólares por mês cada uma. E duas grandes: o plano Max do Claude e o plano Pro do ChatGPT, que são os planos mais altos que essas duas empresas vendem — e são, de longe, a parte cara da conta.
Só que aqui eu preciso ser bem clara, senão este post vira propaganda: nada do que você viu aqui exigiu plano caro. Durante muito tempo, e por muito tempo mesmo, eu tinha só o Claude Pro — o plano do meio — e era com ele que eu fazia tudo. Eu subi porque o meu número de projetos cresceu, não porque o trabalho desta semana precisasse.
Se você está começando, comece pelo mais barato de um só. Assinar quatro coisas antes de saber se você vai usar é a forma mais rápida de desistir achando que o problema era você.
Datando, porque isso muda rápido: esses são os planos e valores de julho de 2026.
Se eu consegui, você consegue
Eu sou millennial. Eu vi a internet chegar. Eu tenho um trabalho de rotina puxada e uma filha pequena, e não sobra quase nada de tempo no meu dia — quando eu falo em duas horas, é depois de a casa dormir.
E eu comecei desconfiada. Vi uma demonstração e achei as respostas genéricas, óbvias, sem graça. Passei um bom tempo achando que aquilo era mais um hype que ia passar.
Não passou, e eu estava errada. Mas estar errada ali me deu uma coisa que eu não teria de outro jeito: eu sei exatamente como é o lado de cá. Eu sei a sensação de olhar pra aquela caixinha de texto e não saber o que escrever. Eu sei o medo de colocar dado seu ali dentro. Eu sei a preguiça de aprender mais uma ferramenta quando já falta tempo pro que existe.
Foi assim quando a máquina de escrever virou computador. Quem estava lá diz a mesma coisa: parecia difícil, parecia que não era pra elas, e depois virou só como as coisas são.
Neste pilar eu vou mostrar, uma coisa de cada vez, como isso entra numa casa de verdade. O cardápio da semana. A lista de mercado que para de repetir compra. O extrato que se organiza sozinho. O roteiro de viagem que sai da cabeça e vira arquivo.
Começando por esta semana, que é a prova mais direta que eu tenho: o artigo sobre acúmulo de milhas que saiu no dia 31, o de Robben Island que abriu a série da África do Sul, e os oito vídeos que foram ao ar na sequência — tudo produzido de um quarto de hotel, em duas horas por noite, por uma pessoa que não sabe programar.
Se eu, millennial, consegui, qualquer pessoa consegue.
