Viagem organizada

Um eSIM funcionou melhor que o wi-fi do lodge. O outro não pegou nem no aeroporto.

Por Diana Marangon Leitura: 11 min Série África do Sul · 09

O Nicco atende clientes. Para a gente, internet em viagem não é conforto — é condição de trabalho. Levei dois eSIMs diferentes nesta viagem, por dois motivos diferentes, e tive uma experiência ótima e uma decepção completa. As duas valem ser contadas, porque a decepção é a que ninguém escreve.

Antes de tudo: o que é um eSIM, sem enrolação

Se você já sabe, pule dois parágrafos. Se não sabe, esta é a parte que resolve.

eSIM é um chip virtual. Em vez de comprar um chip de plástico, tirar o seu, guardar o seu num lugar seguro (e perder), você compra um plano pela internet, recebe um QR code, aponta a câmera do celular para ele e pronto: o plano fica instalado no aparelho, convivendo com a sua linha brasileira.

A vantagem prática é uma só, e é grande: você desembarca já conectada. Não precisa achar loja de chip no aeroporto, não precisa falar a língua local no balcão, não precisa arriscar comprar de camelô. Sai do avião, liga o eSIM, tem internet.

Três coisas que ninguém avisa e que eu aprendi:

1. Instale ainda no Brasil, com wi-fi. A instalação precisa de internet. Instalar não é ativar — você deixa o plano guardado no aparelho e liga quando chegar.
2. Confira se o seu celular aceita eSIM. A maioria dos aparelhos dos últimos anos aceita, mas não todos, e alguns modelos vendidos em certos países vêm sem o recurso. Se você está trocando de aparelho, esse é um item que vale entrar na conta antes da compra.
3. Guarde o QR code num lugar que funcione offline. Um print na galeria vale mais que um e-mail que você não vai conseguir abrir sem internet.

O que funcionou: Airalo na África do Sul

Direto ao ponto: funcionou muito bem, os 24 dias inteiros, em Joanesburgo, na região do Kruger, nas Winelands e na Cidade do Cabo.

Mas o que me convenceu de verdade não foi a cidade. Foi o Kruger.

Dentro do parque, o eSIM pegou melhor que o wi-fi do próprio lodge.

Isso merece um parágrafo, porque é contraintuitivo. A gente tende a achar que o wi-fi do lugar onde está hospedado é a conexão boa, e que o dado móvel é o quebra-galho. Numa região de reserva, onde o wi-fi do lodge divide uma banda modesta entre todos os hóspedes, a rede de celular pode ser bem mais estável que a rede do hotel — e foi exatamente o que aconteceu.

Para o Nicco isso significou responder cliente de dentro do Kruger. Para mim, significou publicar conteúdo todo dia durante a viagem sem depender da boa vontade do roteador de ninguém.

Quanto custou, de verdade

Eu só fui atrás desse número depois de voltar, conferindo a fatura do cartão lançamento por lançamento — e aí apareceu a informação que eu mais sinto falta nos posts sobre eSIM.

Não foi uma compra. Foram três, por pessoa.

Cada um de nós comprou o plano inicial antes de embarcar e recarregou mais duas vezes ao longo dos vinte e quatro dias:

Eu: R$ 159,38 no plano inicial, R$ 186,69 na primeira recarga e R$ 263,25 na segunda. Total: R$ 609,32.
O Nicco: R$ 160,59, R$ 188,49 e R$ 188,24. Total: R$ 537,32.

Somando os dois, R$ 1.146,64 em internet para a viagem inteira. Dá cerca de R$ 24 por pessoa, por dia.

Para o que entrega — sair do avião conectada, trabalhar de dentro de uma reserva, não depender de wi-fi de hotel — eu acho barato. Mas o formato da compra importa, e ele é diferente do que a maioria imagina: você não compra um eSIM e esquece. Você compra o primeiro e vai recarregando conforme os dias passam.

Se você está orçando uma viagem longa, não coloque na planilha o preço do plano inicial. Coloque o preço inicial mais duas recargas, e você chega perto do que realmente vai gastar.

O que não funcionou: Roamless global em Angola

Aqui está a parte que interessa, e ela é o motivo deste post existir.

O nosso voo passava por Angola, com uma parada que não era só conexão de aeroporto — a gente saiu, ficou hospedado no Viana Nature Resort e voltou. Ou seja: precisávamos de internet lá.

Pesquisamos. O Roamless aparecia como a melhor opção para Angola, e a gente comprou justamente a versão global, que dizia cobrir o país.

Não pegou. Em nenhum momento.

Não foi sinal ruim, não foi lentidão, não foi cair e voltar. Foi zero: no aeroporto de Luanda, no trajeto até o resort, durante a estadia e no caminho de volta.

Custou R$ 181,07 pelos dois — R$ 94,51 no cartão do Nicco e R$ 86,56 no meu, comprados nos dias que antecederam a parada em Angola. Não é muito dinheiro, e o prejuízo não foi o dinheiro: foi ter chegado num país contando com uma conexão que não existia.

E aqui entra o detalhe que muda a conclusão

Eu poderia terminar este post dizendo "o Roamless não presta" e ganhar um clique fácil. Não é o que eu vi, e escrever isso seria desonesto.

No aeroporto de Luanda, a própria Unitel — a operadora local — estava sem rede.

Isso muda a leitura inteira do problema. Um eSIM não tem antena própria: ele é um contrato de acesso às redes das operadoras locais. Se a operadora local está fora do ar, não existe eSIM no mundo que resolva.

Então a conclusão honesta não é "esse produto é ruim". É esta, que é mais útil e mais incômoda:

Angola ainda tem um problema sério de infraestrutura de rede móvel, e comprar um plano internacional que lista o país na cobertura não garante que você vai ter internet lá. A cobertura no papel e a rede funcionando na rua são duas coisas diferentes.

O que salvou a gente

O wi-fi do Viana Nature Resort, que era bom. Foi por ele que a gente resolveu tudo o que precisava resolver nesses dias.

E é por isso que a lição deste post não é sobre marca. É sobre nunca ter uma única fonte de internet quando ficar sem ela custa dinheiro.

O plano B, na prática

Isso entra na mesma categoria de coisas que se resolvem antes de comprar a passagem, e não no aeroporto. Se ficar incomunicável é um problema real para você — trabalho, criança, conexão apertada —, monte a rede em camadas. Estas são as cinco que eu passei a montar:

1. Confirme o wi-fi da hospedagem antes de reservar. Não o "tem wi-fi" da descrição: procure nas avaliações recentes se as pessoas reclamam dele. Foi o wi-fi do resort que nos salvou em Angola, e foi sorte — hoje eu confirmaria antes.

2. Para país com dúvida de cobertura, tenha dois caminhos. Um eSIM e o wi-fi, ou dois eSIMs de operadoras diferentes. O custo de um plano pequeno de reserva é baixo perto do custo de um dia sem trabalhar.

3. Baixe tudo o que é crítico antes de embarcar. Mapa offline da cidade, cartão de embarque em PDF na galeria, vouchers, endereço da hospedagem em texto, e o QR code do próprio eSIM. Tudo que só existe na nuvem deixa de existir sem rede.

4. Combine antes como avisar que você está sem sinal. Parece bobo, mas evita pânico do outro lado. Um "se eu sumir por umas horas, é rede" dito antes vale muito.

5. Instale e teste o eSIM ainda em casa. Instalar dá para fazer com antecedência. Descobrir que o aparelho não aceita, ou que o QR code veio com erro, é infinitamente mais barato na sua sala do que na fila da imigração.

O veredito, separado por país

Para a África do Sul: o Airalo funcionou muito bem, cobriu a viagem inteira e, dentro do Kruger, entregou mais que o wi-fi do lodge. Recomendo sem ressalva.

Para Angola: não conte só com eSIM global. O nosso não funcionou, e a rede local também estava fora no aeroporto. Vá com wi-fi de hospedagem confirmado e pesquise solução local antes de embarcar.

E a regra que vale para os dois casos, que é a mesma que eu venho repetindo nesta série inteira: cobertura anunciada não é cobertura testada. O que está escrito na página de vendas é uma promessa. O que existe na rua é outra conversa — e é a única que importa quando você desembarca.

Relato de uso pessoal entre 15 de julho e 8 de agosto de 2026, na África do Sul e em Angola, com dois aparelhos. Não é teste técnico controlado nem medição de velocidade: é o que aconteceu com a gente, nos lugares onde a gente esteve. Cobertura de rede muda com o tempo, com a operadora parceira e com a região — confirme a cobertura atual antes de comprar qualquer plano.

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Diana Marangon

Diana Marangon descobriu o TDAH tarde e o hiperfoco cedo — hoje ele mora em planilha de viagem e geladeira organizada. Servidora pública federal há 20 anos, casada com o Nicco, mãe da Dinahzinha. Escreve sobre a matemática escondida dentro de casa: cozinha sem desperdício, finanças a dois, viagens bem armadas e milhas. Publica toda semana no Organiza & Prospera.